domingo, 30 de agosto de 2015

Uma flor selvagem


         O amor é uma escultura que se faz sozinha.
         É uma flor inesperada sem estação do ano para surgir nem morrer. Vai sendo esboçada assim ao leu: aqui a sobrancelha se arqueia, ali desce a curva do pescoço, a mão toca a ponta de um pé, no meio estende-se a floresta das mil seduções.
          Imponderável como a obra de arte, o amor nem se define nem se enquadra: é cada vez outro, e novo, embora tão velho. Intemporal. Planta selvagem, precisa de ar para desabrochar mas também se move nos vãos mais escuros, em ambientes sufocantes onde rebrilham os olhos malignos da traição ou da indiferença, e a culpa o pode matar.
          O convívio é o exercício do amor na corda bamba. Os corpos se acomodam, as almas se espreitam, até se complementam. Mas pode-se cair no tédio - sem rede -, e bocejar olhando pela janela.
           Inventamos receitas para que o amor melhore, perdure, se incendeie e renove... nem murche nem morra. Nenhuma funciona: ele foge de qualquer sensatez, como o perfume das maçãs escapa num cesto de vime tampado.
           Se fôssemos sensatos haveríamos de procurar nem amar, amar pouco, amar menos, amar com hora marcada e limites. Mas o amor, que nunca tem juízo, nos prega peças quando e onde menos esperamos.
            Nunca nos sentimos tão inteiros como nesses primeiros tempos em que estamos fragmentados: tirados de nós mesmos e esvaziados de tudo o mais, plenos só do outro em nós.
            Nos sentimos melhores, mais bonitos, andamos com mais elegância, amamos mais aos amigos, todo mundo foi perdoado, nosso coração é um barco para o qual até naufragar seria glorioso (ah, que naufrágios...).
            Mais que isso, nesse castelo - como em qualquer castelo - não pode haver dois reis. Quem então cederá seu lugar, quem será sábio, quem se fará gueixa submissa ou servo feliz, para que o outro tome o lugar e se entronize e... reine?  
             A palavra "liberdade" teria de ser a mais presente, porém a mais convidada a discretamente afastar-se  e permitir que em seu lugar assuma o comando alguma subalterna: tolerância, resignação, doação, adaptação.
             Rondando o fosso do castelo, a vilã de todas: a culpa.
             Quem deixou sobre minha mesa um bilhete dizendo " Se você ama alguém, deixe-o livre" sabia das coisas, portanto sabia também o desafio que me lançava. No mundo das palavras há tantos artifícios quantas são as nossas contradições.
              Por isso, conviver é tramar, trançar, largar, pegar, perder, e nunca definitivamente entender o que - se fôssemos um pouco sábios - deveríamos fazer.
              Farsa, tragédia grega ou dramalhão mexicano, às vezes comédia de mau gosto, outras soneto perfeito: o amor, como as palavras, se disfarça em doces armadilhas ou lâminas mortais.



Extraído do livro: Pensar é transgredir - de Lya Luft

quarta-feira, 29 de julho de 2015

"... Sonha, Alice..."

     


           Ontem, recebi, através de meu e-mail, essa pérola (título) de alguém que, pela a ironia do contexto, há muito perdeu sua capacidade de sonhar e de acreditar em seus sonhos!
            Eu, felizmente, sempre acreditei nos meus, pois foi através deles que eu perdi o medo de me arriscar e de me transportar para um mundo de muitas possibilidades e assim,  promover inúmeras transformações em minha vida e na das pessoas que eu amava e admirava!
            Em 1973, quando ingressei pela primeira vez em uma Universidade, durante uma aula de Filosofia, do Primeiro Semestre de Letras, o professor, que era padre, daqueles bem irônico, que se sentia bem acima de todos nós alunos, levantou uma questão a respeito do ... " Querer nem sempre é Poder"... E durante a discussão ele ponderou sobre a impossibilidade de um jovem da periferia de Fortaleza querer ter acesso à Universidade, tendo em vista à sua realidade financeira como, ( meios de transporte, material didático ), capacidade cognitiva, etc e etc...).  Como toda "chata" que se preza, levantei a mão e lhe contestei: Professor, sou uma desses jovens que mora na periferia, tomo dois ônibus para chegar até aqui, e  nunca deixei de estudar por falta de material didático. E, nas mesmas condições que eu, nesta sala tem vários outros jovens de várias periferias que ingressaram nesta Universidade!
O irônico professor me olhou pasmo, e nem preciso lhes dizer que quase me reprovou, durante aquele semestre!
              Mas voltando ao título: "Sonha Alice", gostaria de enfatizar que não permitam a nenhum "babaca" interferir no tamanho dos seus sonhos, como queria fazer o infeliz daquele meu professor de Filosofia, pois mesmo morando, naquela época, na periferia da cidade, nada me impossibilitou de me deslocar dali e de conhecer grande parte do mundo, lindos lugares, cidades maravilhosas e de ter tido a felicidade de interagir com várias pessoas simples e inteligentes,  de todos os cleros e línguas estrangeiras e com elas ter aprendido e falado algumas.
             Foi acreditando nos meus sonhos que também me radiquei em Brasília, em 1979, que me recebeu de braços abertos, que me proporcionou mais liberdade e os meios de sobrevivência material e espiritual, onde vivi várias paixões, conheci o amor da minha vida, me casei e desse casamento nasceu minha linda e inteligente filha Paula, o meu maior sonho de vida e a minha melhor obra de arte, até hoje!  Por isso e por mais outros motivos insisto e persisto que:  Alice Deve Continuar Sonhando!!!

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Rubel - Quando Bate Aquela Saudade




            Tudo em nossa vida, como nas Estações do Ano, tem seus ciclos! E cada um que começa terá certamente o seu tempo e seu fim. E aí vem a saudade. Das pessoas, dos lugares, dos aromas, dos sons e a até mesmo do silêncio! E todas essas vivências nos convidam a dimensionar centenas e centenas de histórias para nós mesmos, que podem, de um certo modo, nos causar tristezas, ansiedades, já que muitas vezes estamos impedidos de estar em alguns lugares ou na presença de alguém que gostaríamos de conviver.
             Por outro lado, esse sentimento também pode nos levar a criarmos novas alternativas para lidarmos com a ausência, que, na maioria das vezes é provisória. É ele que inspira a maioria dos grandes artistas, músicos e escritores de todo o mundo e de todas as épocas a transformarem o papel e a tela em branco em obras maravilhosas que nos transportam, mesmo sem sairmos da nossa "bolha"!
             Então como usarmos o sentimento da saudade em nosso favor? Basta pensarmos que a saudade é "... o amor que fica"...! É a sensação boa de sentirmos o calor dos raios do sol através da janela, mesmo quando a tempestade bate à nossa porta. É a capacidade de percebermos todos os aromas, mesmo quando o vento insiste em dissipá-los! É poder sentirmos a presença de quem amamos, mesmo estando constantemente sozinhos! Dessa forma, a saudade vai diminuindo gradativamente, até que possamos lidar com a ausência das coisas e das pessoas com quem gostaríamos de estar sempre próximos.


  

domingo, 17 de maio de 2015

Compromisso emocional: o vínculo que cega

     Todos nós sentimos amor, amizade, desprezo e até ódio por algumas pessoas em nossas vidas. Esses sentimentos tendem a comprometer nossa objetividade. Não queremos pensar mal das pessoas que amamos, e não queremos ver nada de bom naquelas que odiamos. Para complicar ainda mais a questão, não gostamos de mudanças. Por segurança e conveniência, temos um compromisso emocional - conosco - de manter as coisas exatamente como estão. A mesma corrente subterrânea que nos leva na direção do status quo também deturpa nossa objetividade quando estamos decidindo se devemos mudar.
      Pode ser muito difícil manter a objetividade quando se está emocionalmente comprometido com o resultado específico. Quanto maior o compromisso emocional, maior a tendência a se comportar irracionalmente. É por isso que os conselheiros normalmente são contra a intimidade sexual até que o respeito mútuo, a confiança e a amizade estejam bem estabelecidas. Uma vez que o ingrediente poderoso e prazeroso do sexo tenha sido acrescentado a um relacionamento, tenderemos a desconsiderar até mesmo os defeitos básicos até que a paixão diminua. E aí poderemos estar bem adiantados no caminho de um desastre emocional. 
       Nem sempre é possível evitar decisões quando se está emocionalmente vulnerável, mas, consciente das armadilhas, pode-se desviar de muitas delas. Para começar, tente evitar as situações em que se sinta pressionado na direção de uma resposta específica. Nessas circunstâncias, você perderá a objetividade. E como resultado, tomará uma decisão ruim, e depois relutará em reconhecer seu erro, mesmo que ele se torne óbvio. Se entrevistar a filha de um amigo para um emprego, você poderá deixar de lado as deficiências fundamentais dela, porque não quer dizer ao seu amigo que a filha dele não está à altura. Se contratar o vizinho como seu contador, ou o companheiro de golfe como seu advogado, você tenderá a subestimar coisas que não aceitaria se não fosse a amizade. Sempre que os seus mundos colidem, você traz os compromissos emocionais de uma situação para a outra.  Se misturar negócios com prazer, o resultado pode ser bom, mas o mais provável é que seu desejo de que todos sejam felizes e de evitar o confronto faça com que você enxergue as pessoas equivocadamente.
      Outro modo comum pelo qual criamos compromisso emocional é reconhecido numa típica instrução de júri: ao iniciar suas deliberações, os jurados são instruídos a não expressar os sentimentos sobre o caso, até que tenham discutido. Quando as pessoas se comprometem publicamente com um ponto de vista específico, elas relutam em mudá-lo. Orgulho, teimosia ou medo de admitir que nos enganamos entram no meio do caminho. Se sua meta é ser objetivo ao avaliar as outras pessoas, não se precipite anunciando a seus amigos, familiares ou colegas de trabalho os sentimentos que tem em relação a alguém, antes de ter tido tempo para reunir a informação pertinente e pensar cuidadosamente sobre ela.
      Se você precisar avaliar alguém com quem está emocionalmente comprometido, pelo menos esteja consciente de que sua objetividade provavelmente será menor. (.......). Dê a você mesmo um pouco mais de tempo e de esforço antes de chegar a alguma conclusão definitiva. Pense se um amigo respeitado e em quem você confia poderia lhe trazer uma nova perspectiva. Faça o papel de advogado do diabo, perguntando a si mesmo como você veria a pessoa se não estivesse  tão envolvido na situação. Mesmo que não consiga eliminar a influência de seu compromisso emocional, você poderá minimizá-la usando uma ou mais destas técnicas.


Extraído do livro Decifrar Pessoas de Jo-Ellan Dimitius - Mark Mazzarella.
         

terça-feira, 12 de maio de 2015

Podemos curtir os Sessenta sem Medos e com muita Paixão!


Entre 20 e 35 anos de idade, pensamos que a vida tem mais sentido nessa fase, devido ao excesso de vitalidade, de beleza, de otimismo e de oportunidades! Acreditamos em tantas possibilidades futuras que, até nos esquecemos de perceber a vida como ela se nos apresenta, deixando passar centenas de situações proveitosas e interessantes... Então bate um grande arrependimento e, acreditamos que, dificilmente teremos novas chances de sermos felizes. Ledo engano!

Em cada fase de nossas vidas sempre haverá um novo olhar, uma nova intensão e um novo jeito de buscarmos outras e, muitas vezes, até mais interessantes formas de realizações.  

O que buscamos em cada fase de nossas vidas é, sem dúvida,  a maneira mais fácil e mais rápida para podermos usufruir da felicidade. E como a felicidade é atemporal, podemos encontrá-la em qualquer década de nossas vidas, basta que estejamos atentos aos inúmeros significantes e significados.

Tudo vai depender do que estamos buscando. Alguns de nós buscamos os bens materiais, outros o reconhecimento, outros o poder, a paixão, a realização profissional, uma família, ou a si mesmo!

Normalmente, ao chegarmos aos 60 anos de idade, já deveríamos ter realizado grande parte desses desejos, mas não necessariamente todos, nem nessa ordem. Muitos de nós já tivemos conquistas profissionais, grandes amores, fiéis amigos, uma bela família, uma boa posição social, já visitamos muitos lugares maravilhosos por aí afora, no entanto não significa que perdemos o poder da busca! Essa deve ser uma constante em nossas vidas, principalmente a do verdadeiro amor, de mais uma nova paixão, mesmo que seja passageira, já que tudo é finito. Aquele amor que nos dá e nos tira o fôlego, a paciência, a disciplina, a coerência, a inflexibilidade. Que nos faz perdermos o medo de nos arriscar para não parecermos ridículos. Que nos impulsiona a irmos mais adiante, já que estamos apenas no meio do caminho. E por quê não querermos voltar a fazer coisas que anteriormente sempre nos davam prazer, como por exemplo, escrever aleatoriamente, tocar um instrumento, cantar, dançar,  pintar, conhecer novas pessoas, ou provocar reencontros com pessoas que marcaram de alguma forma nossas vidas?

Para sermos mais felizes nessa fase da vida, não precisamos exigir tanto de nós, nem dos outros. Basta nos permitirmos mais e nos deixar levar pelo sentimento de que tudo é possível  e tentarmos tirar proveito de todos os pequenos gestos, (que não são poucos...), das carícias, dos abraços, beijos, etc., já que todas essas sensações não morrem com a idade, apenas adormecem!      

sábado, 4 de abril de 2015

O que a vida oferece

       Conversando outro dia com um senhor saudosista, ele me contou que,quando sua filha tinha uns 10 anos de idade, ele costumava pegá-la pela mão e propunha:  "Vamos dar uma volta na rua para ver o que a vida oferece".
      Tanta gente aí esperando ansiosamente para ver o que a vida oferece, só que não sai de casa, e quando sai, não tem curiosidade e abertura para receber o que ela traz.
       Infelizmente, já não caminhamos pela rua, a não ser num ritmo acelerado, com trajeto definido e com intuito de queimar calorias. Marchamos rumo a um melhor condicionamento físico, o que é um belo hábito, mas, flanar, não flanamos mais. Não passeamos. As ruas estão esburacadas, há muitas ladeiras, o trânsito é barulhento e selvagem, compreende-se. Mesmo assim, a despeito de todos os inconvenientes, é preciso dar uma chance à vida, colocando-nos à disposição para que ela nos surpreenda.
     Ao sair sem pressa, paramos numa banca de revistas e descobrimos uma nova publicação. Dizemos bom dia para o jornaleiro e ele, gentil, nos troca uma nota de valor alto. Na calçada encontramos um velho amigo. Ou um artista famoso. Ou alguém que sempre nos prejudicou e hoje está mais prejudicado que nós, bem feito.
        Na rua, pegamos sol. Paramos para tomar um suco de maracujá com maçã. Flertamos. Um novo amor pode surgir de uma caminhada tranquila numa rua qualquer. E uma nova proposta de trabalho pode surgir de um esbarrão num ex-colega: " estava mesmo pensando em te procurar, cara".  Se continuasse apenas pensando, nada aconteceria.
        Na rua, o jeito de se vestir de uma moça inspira a gente a resgatar uma jaqueta que não usávamos mais. Bate de novo a vontade de ter um cachorro. Descobrimos que é hora de marcar um exame minucioso no joelho direito, por que ele incomoda tanto?
         Encontramos umas amigas num bistrô e paramos um instantinho para conversar, e então ficamos sabendo de uma exposição que não s e pode perder. 


         Passamos por uma livraria e damos uma namoradinha num livro que nos seduz. Ajudamos uma senhora que está saindo com várias sacolas de um supermercado, não custa dar uma mão. Aceitamos o folheto entregue por um garoto na esquina, anunciando uma cartomante que promete trazer seu amor de volta em três dias. Você joga o folheto no lixo, e não no meio-fio. Você compra flores para a sua casa. Você observa a fachada antiga de um prédio e resolve voltar ali com uma máquina fotográfica. Você entra numa igreja, não fazia isso há anos. Reencontra um ex-namorado que passa de carro e lhe oferece uma carona. Você nem tinha percebido como havia caminhado e como estava longe de casa. Aceita a carona. Um novo amor não surgiu, mas seu antigo amor foi resgatado em menos de três dias, nem precisou de cartomante.
          Pode nada disso acontecer, óbvio. Mas sem dar uma chance à vida é que não acontece mesmo.


Texto extraído do livro Felicidade Crônica - Martha Medeiros.